Entrevista: Andréia Meneguete

Atire a primeira pedra quem nunca se perdeu nas reportagens de uma revista de moda, sonhando, admirando, imaginando e tantos outros andos que aquelas páginas conseguem nos proporcionar. Com prazer, trago hoje aqui Andréia Meneguete, jornalista de moda e branding lover. Uma mulher admirável pelas conquistas, reflexos do trabalho duro diário e que vai nos inspirar entrevista abaixo.

perfil_andréia

Mãe e taurina, a paulistana de 33 anos conta que morou dos 2 aos 7 anos em Recife com o pai e trouxe na bagagem muito do que é sua essência hoje. Quando o assunto é São Paulo, Andréia a relata com sensibilidade: “Eu acho que é a cidade brasileira que mais tem a ver com o meu perfil, uma vez que eu também nunca durmo. Amo morar aqui e explorar aquilo que a cidade tem. Amo ir ao Centro de São Paulo, como Mercado Municipal, Sé, Luz. Parece que ali as coisas são de verdade, sabe? Tá tudo bem no estado bruto, você lapida de acordo com o seu olhar e repertório. Nas demais regiões da cidade, parece que tudo é para ser visto como desejam. Já no centro, você vê, sente, de acordo com o que tem dentro de você”.

Formada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, pós-graduada em Estética e Gestão da Moda pela USP e com especialização em Fashion Business & Brand Management pelo Istituto Marangoni de Londres – além de muitos outros cursos – foi o destino que a levou para o mercado de moda de beleza. No início da universidade, Andréia queria mesmo era trabalhar com política, morar em Brasília e ser correspondente nacional da Folha de São Paulo. “Eu queria colocar o dedo na ferida e mudar o mundo de alguma forma”. Em 2006, começou a trabalhar como freelancer para uma revista de noivas e outra de fitness, ambas da mesma editora cuja editora-chefe, que gostou muito de seu trabalho, incumbiu a Andréia ainda mais tarefas. Tempo depois, a editora-chefe deixou o posto e Andréia passou a assumi-lo com demasiada competência. Uau! “Só que eu tive que ralar MUITO, pois eu era editora de uma revista e eu tinha que saber daquilo tudo, além de liderar uma equipe de designers, estagiário, repórter, fotógrafos e frilas. Chorei muito, estudei muito e me apaixonei pela moda e pelo universo da beleza. Na verdade, eu acho que eu já gostava, só que eu descobri isso depois”.

Quando a entrevistei, o que mais me chamou a atenção nessa jornalista – pedra no Manolo Blahnik de qualquer perrengue que esteja no caminho – foi sua determinação. Sem mimimis, sem desculpas. “Ainda no emprego como editora, eu cismei que queria escrever para a Vogue Brasil. Mandei dezenas de e-mails para a Nana Caetano, na época redatora-chefe da Vogue, que ainda pertencia à Carta Editorial. Mandei o primeiro e-mail com o meu CV + sugestões de pautas. Depois, fui mandando pautas mês sim, e outro também. Até que um ano depois, em 2008, ela me ligou perguntando se eu queria frilar para a revista. Eu disse que sim. E como a Vogue não era concorrente das revistas que eu fazia, então eu podia frilar numa boa. E continuo até até hoje para a seção de Nutrição, Fitness e Bem-Estar”.

Vogue AndreiaAndréia em ação na Vogue

Em 2009 Andréia deixou o emprego de editora para trabalhar como repórter-especial na Revista Manequim, da Editora Abril, a convite da própria redatora-chefe, Cláudia Garcia. “Parece loucura, mas eu precisava passar pela Abril e absorver o que aqueles profissionais tão feras tinham. Eu tinha que aprender, eu tinha que crescer”. Ela lembra que anos antes enviou seu CV para Cláudia. Não houve costas quentes, não! Foi raça, determinação! Da mesma forma como aconteceu na Vogue. E vocês sabem que o que mais gostamos de fazer aqui no blog é desmitificar profissões ditas como impossíveis, isso não existe. Levantar do sofá, agir mais e se lamentar menos, funciona! “Sabe o que é melhor? Eu participei da edição de 50 anos da Manequim, foi incrível fazer parte desse trabalho. A Manequim é a revista de moda mais antiga do Brasil, pensa?”.

Andréia engajou na área acadêmica em 2012 e, até hoje, dá aulas para o curso de Jornalismo de Moda e Jornalismo Feminino, na FAAP. Emprego que conseguiu da mesma forma que os outros: mandou um e-mail, sugeriu o curso, passou por avaliações e tchã-nam, deu certo! Com muito esforço, ideias sólidas e sabendo exatamente o que quer, de forma “natural e orgânica”, como ela mesma disse. Por esse período, Andréia recebeu um convite da Monica Salgado para ser editora de beleza da revista Glamour. Monica acompanhava seu trabalho na Vogue Brasil e a convidou. “Fiquei na Glamour por um ano, onde pude aprender muita coisa, muita mesmo. Trabalhar com a Monica Salgado é uma inspiração diária”.

Capa Revista Glamour_Dezembro 2012Trabalho da Andréia na Glamour

A jornalista deixou o trabalho na Glamour tempo depois e trabalhou na área de Planejamento Estratégico de O Boticário. Foi com esse emprego que se apaixonou por Branding e Publicidade. Hoje, dá aulas na FAAP, escreve para a Vogue, começou a desenvolver um trabalho estratégico de negócios para a editora Trip, é correspondente internacional para a Revista Máxima, em Portugal e, semanalmente, escreve sobre beleza e bem-estar para a Veja Rio, na coluna do Dr. Fabiano Serfaty, médico das estrelas globais.

MFNEB: Como foi sua experiência quando faz um curso internacional em uma escola tão reconhecida quanto a Marangoni? Vinha pensando nisso há algum tempo?

Andréia: Sim, sempre quis estudar fora. Como fui mãe muito cedo, tive que prorrogar esse sonho. Mas em 2015 definitivamente aconteceu, pois foi a época que estava sem emprego fixo e com muita vontade de espairecer e me especializar. Estudar em uma das escolas de moda mais renomadas do mundo só agregou ao meu currículo. No Marangoni, eu pude comprovar algumas metodologias de trabalho, pude ver como os grandes profissionais da área trabalham, onde eles se inspiram. Foi uma experiência engrandecedora.

caderno de estudos _marangoniCaderno de estudos da Andreia no Marangoni

MFNEB: Você é correspondente internacional da Máxima Portugal e repórter freelancer da Vogue, duas revistas conceituadas no mundo da moda. A pergunta que não quer calar que todos sempre querem saber: como foi sua aproximação, em especial, da revista Vogue? Conseguiu a oportunidade através de uma entrevista de emprego? 

Andréia: Em ambas as revistas, tanto Vogue como Máxima, eu mandei sugestões de pauta por um ano, até que um dia eu consegui.  Na Máxima, eu havia conhecido a editora de Beleza em Paris, quando estava a trabalho pela Glamour. Assim que sai da Glamour mandei um e-mail dizendo que estava disponível, caso elas precisassem de novidades daqui, já que as portuguesas amam nosso jeito de levar a vida, nosso corpo, nossa beleza. Depois de um ano de conversas, veio o ok convite para eu escrever para eles. Demais, não?

Se tem uma coisa que eu posso dizer aqui é: eu sei muito bem o que eu quero e não desisto fácil. Mas eu não sou inconveniente, eu sempre tenho um plano, uma pauta em mãos. (rs)

MFNEB: E agora na área acadêmica. A experiência de estar dentro da sala de aula é muito diferente daquela que experimentou em empresas? Consegue dizer qual das experiências prefere?

Andréia: Não consigo dividir a minha carreira dessa forma, entre acadêmico ou mercado. Não consigo dividir a minha carreira nem da minha pessoa física. Acho que a grande questão aqui é: eu sou apaixonada pelo o que eu faço, então todos os dias eu tenho o maior prazer de levantar da cama e saber que eu vou trabalhar com aquilo que eu gosto, que eu escolhi para mim. Quando estou na sala de aula, a troca é em tempo real, os alunos são maravilhosos, amo ver o brilho nos olhos deles. Eles me ensinam muito, de verdade. E quando eu recebo uma mensagem deles dizendo que conseguiram ir bem numa entrevista por causa das minhas aulas, eu quase choro. Tem alguns alunos que viraram amigos, para você ter ideia, tamanho é o meu envolvimento com eles e com o que eu faço. Já a experiência quando eu estou do outro lado, sendo jornalista, é a de ser curiosa, de pensar naquilo que o que leitor gostaria de saber, o que ele deseja de mim como investigadora. Definitivamente, eu amo muito o que eu faço.

MFNEB: Como funciona sua rotina de trabalho hoje?

Andréia: Hoje eu estou trabalhando na Trip, fico lá das 11h às 20h, por um mês, pois o trabalho é um freela. Escrevo para a Vogue, Boa Forma, Cláudia, Máxima, Veja Rio, Use Fashion e LifeStyle Magazine, além de dar aula na FAAP. Recentemente, fui convidada para dar aula na Unipar, uma faculdade do Paraná. Embarco semana que vem para dar aulas para a pós-graduação de Design de Moda. Como eu dou conta? Não desperdiço tempo. Trabalho quando meu filho dorme, mando e-mails do carro, faço entrevistas na hora do almoço. Isso sem contar que eu treino Muay Thai três vezes na semana, das 7h às 8h, e pratico corrida de terça e quinta. Tenho muita energia, amo viver cada hora do meu dia.

MFNEB: Qual foi a experiência mais engrandecedora (ou mais especial, afinal, toda e qualquer experiência nos engrandece, né?) que o mercado de moda pôde te proporcionar?

Andréia: Cada passo da minha carreira, cada chefe, cada aluno, cada professor me ensinaram alguma coisa. Eu sempre falo: até gente do mal te ensina alguma coisa; elas nos ensinam como não devemos ser, não é verdade? Eu faço um moodborad mental das pessoas que eu gostaria de ser. Tem gente que está na parte de inteligência, tem gente que está na parte de delicadeza, tem gente que está na parte de bondade, tem gente que está na parte de organização de tempo. Eu sou uma ótima aprendiz e observadora, pode acreditar.

MFNEB: Hoje no mercado, temos exemplos de fast fashion que crescem como nunca antes visto aqui no Brasil. Você acha que em meio à crise econômica brasileira o mercado de moda vai conseguir se manter firme como acontece há alguns anos? E em relação a afirmação de que o brasileiro não consome mais roupa, mas sim moda?

Andréia: Eu acho que vamos tirar o pé do acelerador, com certeza. Mas eu acho que a gente está muito aquém de outras partes do mundo quando falamos de consumir moda. Acho que hoje temos mais informação de moda, fato. Mas não acredito que o brasileiro saiba consumir moda com maestria, criando seu próprio estilo, se desapegando de algumas regras e convenções. Sinto que o consumidor brasileiro de moda quer ser sempre alguém que já existe e deu certo, nunca encontrar seu caminho dentro do guarda-roupa. Sinto que eles precisam sempre de uma cartilha. Os nossos blogs de moda são de streetstyle, mas, sim, look do dia. Assim como nas lojas: se não tiver um manequim coordenado, as pessoas acham que aquela loja é ruim. O consumidor brasileiro – e acho que é até cultural por causa das novelas – se apega a tudo que vem pronto, mastigado. Quando veem algo na passarela, não entendem a criação, tecnologia, textura, cores… Eles só querem aquilo que é pronto, que é altamente comercial.

MFNEB: Deixe uma dica pra todas as pessoas que querem entrar nesse mercado que nos enche os olhos.

Andréia: Ter uma meta estabelecida é essencial para não desperdiçar energia no meio do caminho. Seja determinado, persistente e muito consciente que o mundo da moda não é glamour, é muito conhecimento e dedicação. Glamour é o sonho que a gente vende para os nossos leitores. O dia a dia é puro work hard, play hard!

 

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Obrigada, Andréia, por essas palavras inspiradoras. Desejamos ainda mais brilho e sucesso na sua carreira trilhada com tanta sabedoria. Parabéns!

Amanda Ferreira

 

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